19 de junho de 2009

Uma lágrima do presente

No início do mês de março, uma reportagem do Fantástico, da Rede Globo, denunciava o abandono por parte do poder público com certas localidades brasileiras, mais precisamente a região oeste do Acre, cidades como Jordão e Tarauacá.
Durante a reportagem, a equipe levou aos expectadores, sentados em seus macios sofás, a dura realidade dos habitantes dessas cidades. Sem estrutura viária ou qualquer indicio de saneamento, as ruas pareciam ser o resultado de uma guerra civil. As crianças tinham no olhar aquela falta de esperança característica dos olhares desprovidos de atenção, de igualdade, desprovidos da humanidade (no sentido que entendemos do que sejam "condições humanas").
O mais alarmante foi o fato das cidades não terem perspectiva alguma de crescimento. É fácil notar que esperança nem sempre resolve tudo. Em outra localidade, Manari (em Pernambuco), cerca de 86% da população sabe apenas escrever o próprio nome, somente funcionários públicos concursados conseguem ter uma remuneração "decente". A média normal do salário da população é de 1/10 do mínimo estipulado pelo governo, ou seja, por volta de R$ 40 mensais. Grande parte da população de Manari, Jordão e Tarauacá recebe auxílio do governo para sobreviver (Bolsa Família, Bolsa Escola...).
As cidades do Acre em questão, por serem muito afastadas dos centros e a população não possuir uma renda suficientemente adequada, que seja capaz de movimentar o precário comércio, acabam tendo um enorme aumento dos preços dos bens de consumo, mesmo dos bens de primeira necessidade. O preço da gasolina nessa região, por exemplo, compete em pé de igualdade com os padrões europeus.
As pessoas nunca viram um chuchu, algumas nunca tomaram banho de chuveiro, um quilo de tomate pode custar R$ 8, são sete dias de barco até o centro mais próximo de Jordão, essas cidades apresentam os menores IDH brasileiros! População pobre, realidade instável. Mistura complexa.
Uma das famílias entrevistadas chamou muito minha atenção. Uma mulher e as filhas, não lembro bem quantas. O marido havia ido para São Paulo, mas ainda não tinha dado nenhuma notícia ou mandado dinheiro. A mulher preparava feijão com farinha para o almoço, cardápio que se repetiria no jantar. Visivelmente fragilizada e marcada pela realidade escassa, a mulher falou, olhando diretamente para a câmera:
_ O sonho da minha filha era ganhar uma boneca que chora, mas eu não posso dar._ quem chorava agora era ela.
Dizem que o Brasil é o país do futuro. Mas quando esse futuro vai chegar?

2 comentários:

Thales Estefani disse...

Nessas horas a gente repete todas aquelas frases manjadas...
"Mas o Brasil não tem jeito mesmo!"
"Isso é culpa do presidente!"
"Deus tenha piedade!"
Mas, infelizmente, elas também não mudam nada!

Bianca Mól disse...

Queriiido, adorei o seu blog. Mesmo. As metáforas com o tempo são ótimas. Estou seguindo. :)
Agora vamos ao texto...Bom, pra começar, acho que o tempo para o Brasil é daqueles bem feios, no estilo dramático das "fortes pancadas de chuva". Sempre quando ouço essa expressão, imagino "pancadas" de verdade (ouch!) e, me dói dizer isso, mas é o que o brasileiro leva todos os dias. Lembro-me da repercussão dessa matéria do "Fantástico", não a vi, no entanto, porém, o caso dessa menininha é de partir o coração. Não por ser uma menininha que sonhava em ter uma boneca que chora...Mas por saber que existem várias mocinhas iguais a essa passando por situação similar. E a gente fica vendo de longe. E quem choramos somos nós.

Beijos,
Bianca